Domingo, 16 de Junho de 2013

A Ponte de Matosinhos

Transcrito abaixo está parte de um artigo d' O Tripeiro, escrito por Flávio Gonçalves, e publicado no ano de 1953, em Fevereiro.
 
(...) a ponte que agora liga Matosinhos a Leça da Palmeira concretiza, realmente, uma obra que nada deve à arquitectura ante-seiscentista.

DESCRIÇÃO ARQUITECTÓNICA

Passando à descrição da ponte, começamos por dizer que é feita de granito e que tem uma série de pormenores originais.

Constituem-na dezoito arcos de volta inteira, os quais sustentam um tabuleiro várias vezes remodelado, em cujo pavimento passa a estrada. Quanto ao número dos arcos, Cerqueira Pinto escreveu na História do Bom Jesus de Bouças que eram dezanove, levando Godinho de Faria [Monografia do Concelho de Bouças, 1899] a repeti-lo e o Guia da Leixões a supor que outrora existiam, de facto, dezanove arcos, e que um havia desaparecido. Mas pode tratar-se de um erro de contagem de Cerqueira Pinto; ou então as obras de urbanização e de viação efectuadas em Leça da Palmeira ou em Matosinhos roubaram-lhe esse arco.

A curva dos arcos mostra-se perfeitamente redonda, de pleno cintro, sendo as aduelas lisas, sem almofadas e quase iguais entre si, do que resulta uma linha regular no extradorso. Diferem bastante uns dos outros os diâmetros dos arcos: - muito reduzidos nos primeiros nove arcos (começando-se a contar da margem sul), maiores nos restantes (os mais próximos da margem norte), e atingindo no décimo quarto a máxima extensão.

O tamanho dos pegões varia de modo inverso, aumentando de largura quando diminui a amplitude dos arcos. A separar os arcos mais pequenos estão, portanto, pilares e tímpanos larguíssimos, verdadeiras paredes de cantaria, onde nem sequer se vêem cortamares ou contrafortes, mas sim, no alto, alguns modilhões.

O aparelho arquitectónico é regular e médio, de sihares dispostos em fiadas horizontais, e isto tanto no intradorso dos arcos, como nos tímpanos (sem olhais), como nos cortamares. Estes últimos, que só aparecem nos pilares mais estreitos - entre os arcos maiores - têm forma prismática e secção triangular na vace voltada a juzante, e forma semi-cilíndrica e secção semi-circular na face voltada a montante. Semelhante particularidade não é vulgar na composição das pontes. Os talhamares de base triangular, quando existem, colocam-se da banda de montante, por razões de ordem práctica, lógica e até científica.

O tabuleiro da ponte desce ligeiramente de Leça para Matosinhos, em rampa mal perceptível, e perto da margem sul flecte um pouco para a direita, numa pequena curva. De um e do outro lado do pavimento levantam-se os muros das guardas, que devem provir de uma época distinta do resto da construção, já pela diferente qualidade do granito, ainda sem patine, já pelo próprio aparelhos e argmassa. Pertencem, por certo, a qualquer das obras que em 1816 e em 1883 se realizaram no monumento.

As dimensões da ponte são [em metros]:
Comprimento total: 121,50
Idem, da curva até à margem sul: 26,20
Largura junto da margem norte: 4,00
Idem, a meio da ponte: 4,22
Idem, junto da margem sul: 4,20

Cumpre analisar, finalmente, as duas meias-laranjas abertas no tabuleiro, sem dúvida os pormenores mais curiosos deste monumento. Compõem-se de dois corpos ligeiramente ovais, de fundo lageado, que apoiados cada um no seu talhamar cilíndrico, avançam fora do piso da ponte, formando varandas para o lado de montante. Tais construções distinavam-se a facilitar o cruzamento de carros, descongestionando a via. Ainda se utilizavam como miradouros ou caramanchões, para o que serviam os bancos de pedra que lhes correm a toda a volta.

A primeira meia-laranja, encontra-se mesmo na curva que o tabuleiro faz, à distância de 26,20m da margem sul (Matosinhos) e de 95,30m da margem norte (Leça da Palmeira). Adiante 25,30m fica a outra meia-laranja, a 70m da margem norte e a 51,50m da margem sul. O uso destes corpos salientes - feitos para dar passagem aos carros, cavalos, e peões que se enfrentavam na ponte - divulgou-se a partir do século XVII. Já na antiga ponte de Coimbra existia o chamado Ó da Ponte, remontante às construções nela efectuadas nos fins do século XVI e nos primeiros anos do século seguinte. Tratava-se de um redondo, colocado quase a meio da ponte, que se compunha de dois semi-círculos murados, assentes em pegões cilindricos e separados pelo pavimento da estrada. Felizmente que logo em 1669 durante a célebre viagem de Cosme de Médicis, o florentino Pier Maria Baldi fixou o aspecto dessa desaparecida ponte coimbrã, em duas aguarelas de notável precisão que as artes gráficas reproduziram e que andam bastante divulgadas no nosso país.

No século XVIII a aplicação das meias-laranjas tornou-se mais frequente, vendo-se sob um traçado circular em Ponte da Barca (1761) e em Amarante (1790), e sob um risco poligonal na ponte de Silves. Só na ponte de Matosinhos existem duas meias laranjas, ambas viradas para o mesmo lado e sem corpos simétricos na face oposta. Caso, na verdade, interessante, que merece ficar anotado de uma maneira particular, especialmente porque esta ponte sobre o rio Leça está condenada a desaparecer.Em breve será derrubada para alargamento do porto artificial de Leixões, cujas docas, febris e enfumaradas, se levantam perto. Assim, mais uma vez em nome do progresso, terminará a história de um típico monumento - típico pela sua biografia agitada e pelos valiosos elementos que fornece para o estudo da arquitectura das pontes seiscentistas.

Quinta-feira, 13 de Junho de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (8)

OITAVA CARTA 
Ocupar-me-ei da terceira parte do país vinhateiro, entre o Pinhão e a Baleira e que tenho chamado o Alto Douro.

A distância é de três légas boas, mas quem tem de as caminhar facilmente acreditará serem quatro. Como acontece até aqui, não há caminho nas margens do rio, póvos apenas se vem na margem direita Casal de Loivos, Foz Tua, Fiolhal, e Riba Longa, não sendo possível descobrir o rio os povos de Ervadosa, Soutelo, Nagoselo, nem S. João da Pesqueira na margem esquerda.

Esta última divisão do terreno marcado para a produção do vinho que (com a exclusão de todo e qualquer outro) é destinado para o embarque, é sumamente interessante para o viajante, amador das belezas e maravilhas da natureza.

Em ambas as margens (até os ribeiros de S. Martinho, acima da quinta do Zimbro) há belas quintas de vinho e azeite, e alguns pomares. No Fiolhal há bastantes amoreiras, das quais se faz alguma seda e os pomares em S. Mamade, logo ao pé, produzem a melhor laranjas da província.

O rio Tua nasce no reino da Galiza, próximo ao lugar de Pias, corre por Mirandela, fertilizando muitas terras, vem desembocar no Douro, no pequeno povo de Foz Tua.

Os ribeiros de S. Martinho separam os xistos dos granitos e são mui notáveis as vinhas na lousa de um lado de cada um dos ribeiros e as grandes e continuadas fragas de granito nos outros lados.

Destes sítios até ao 1º ponto dos Culmaços (um bom quarto de légua) as margens apresentam vistas sublimes que encantam o verdadeiro artista e amador da natureza. Nos Culmaços tornam a principiar os xistos e por conseguinte as vinhas e estas na sua vez acabam na Baleira, por baixo do celebre monte de granito de S. Salvador do Mundo.

Os pontos, de vergonha para o Governo, são os seguintes: Aroeda, Frete, Carrapata, Roriz, Malvedos, e Culmaços.

As terras nestes sítios são mais delgadas do que as do baixo Corgo e os calores são muito fortes. O bastardo e o alvarilhão que produzem bem no distrito de Penaguião não se dão aqui tão bem, e por isso que o gosto do mercado vinhateiro é sem dúvida de vinhos encorpados e com muita cor, se cultivam o Souzão, a Touriga, Tinta Francesa, Tinto Cão, Mourisca, e mais outras tintas. Os vinhos brancos ficam mais desviados das margens do rio.

As vindimas estão a findar e por toda a parte os excessivos calores tem secado muito vinho, talvez uma quinta parte da produção total.

Tenho dito que as margens do rio, por toda a extensão do país vinhateiro (que vem a ser outo léguas) tem poucos habitantes e não sendo no tempo das vindimas, apenas fica um caseiro em cada adega.

Agora porém, o país parece outro, ranchos de trabalhadores com cestos cheios de uvas às costas, comboios de bestas carregadas com odres, conduzindo vinho de umas adegas para as outras; centenares de mulheres nas vinhas, vindimando as uvas e cantando as suas modinhas, os homens nos lagares pisando as uvas ao som do tambor, viola e gaita de fole, é o que se vê e se ouve em todas as direções.

Apesar da moléstia das videiras e a probabilidade de uma continuada escasses de vinho, toda a gente que encontrei parecia contente e satisfeita, contribuindo para isso os altos preços por que se tem vendido os vinhos e não ter havido diferença sensivel nos jornais.

Nota-se também que muitos negociantes estrangeiros do Porto, este ano compram uvas e fazem o vinho à sua vontade na época da vindima!!

Falei os caseiros que ficam todo o ano a tomar conta das quintas. Honra seja feita a esta classe dos habitantes do Douro.

O caseiro tem toda a responsabilidade dos grangeio das vinhas, do fabrico do vinho e sa sua conservação até que seja carregado, desviado de qualquer povo, sofrendo privações, exposto ao rigor do tempo; recebe apenas por ano em renumeração dos seus serviços e para o seu sustento e da mulher e filhos, umas 15 a 20 moedas; são mui raros os casos em que ele se esquece do seu dever.

Os carreiros e carretões tem a consciência mais elástica, tal é o seu cuidado para que nem as pipas nem os odres arrebentem por andarem muitos cheias, que fazem alto muitas vezes pelo caminho, para dar alívio às vasilhas que conduzem, não se esquecendo de convidar os amigos que encontram para tomar parte nesta importante operação. Não deixara de ser interessante o seguinte extracto de uma ordem dada a 9 de Março de 1791 pelo juíz conservador da Companhia Geral do Alto Douro:

Sendo tão público e geral o desafôro praticado pelos carreiros de abrirem as pipas pelos batoques, até furando-as para beberem o vinho, e o dar a quem encontram; ordeno a todos os comissários que a Junta da Companhia tem no Douro, formem processos dos referidos factos &c. &c.

Não acontece haver a mesma generosidade da parte dos trabalhadores que conduzem as uvas. Às vezes tendo-lhes pedido um cacho de uvas, respondiam-me que não o podiam dar sem licença do patrão, e logo depois passava o ranco inteiro na barca de Baguste e cada homem com todo o sangue frio lavando enormes cachos no rio, comendo-as e até dando-as ao barqueiro!

Não posso dizer com certeza se s vindimeiras costumam esconder passas nas algibeiras, porém o que é facto é que em certas quintas costumam à noute dar busca nas mulheres, na mesma forma que fazem nas fábricas de tabaco em Lisboa, Sevilha e outras cidades.

Em todas as quintas há duas cardanhas, uma para os homens, outra para as mullheres.

Nos domingos e dias santos, ouve-se missa logo ao romper do dia, para que os trabalhos da vindima não sejam interrompidos. Os homens ganham 200 reis por dia e as mulheres seis vintens; o pão é à custa deles, mas o senhoria dá o almoço, jantar e ceia; em outro tempo também dava vinho, porém agora não o há.


Sou de VV.
J.J. Forrester

Segunda-feira, 10 de Junho de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (7)

SETIMA CARTA

Apesar de se não poder fazer sempre a viagem da Régua ao Pinhão num dia, eu a farei nesta carta para que a descrição se torne mais interessante.

Já disse que os rios Corgo e Barosa separam o Baixo do Cima Corgo – o rio Pinhão separa este do resto do distrito vinhateiro, que eu chamo o Alto Douro.

O Corgo, chamado Corrugo pelos romanos, nasce nas vizinhanças de Vila Pouca, passa por Vila Real, recebe as águas do Tanha ao pé da Vila da Persegueda e caí no Douro entre a Régua e Canelas.

Os rios tributários do Douro entre o Corgo e o Pinhão são o Tedo, o Távora, e o Torto.

O Távora, ou Soberbo, tem origem numa fonte de Trancoso e aumentado por diversos ribeiros e regatos, divide os dois bispados de Viseu e Lamego, passa pela Vila de Távora e o Lugar de Tabuaço e daí caminha para o Douro.

Este rio deu o seu nome à ilustre família dos Távoras, e mandou-se chamar Soberbo, depois que o último marquês daquele título padeceu ignominiosa morte no Cais da Belém a 13 de Janeiro de 1759, por alegarem ter ele parte na conjuração contra El-Rei D. José I; porém o rio é ainda vulgarmente conhecido pelo seu antigo nome.

Na marca actual do Douro, os rios Corgo, Tua, Barosa e Távora, apenas são pequenos regatos – e os rios Tedo e Torto estão secos de todo.

Há poucas propriedades nas margens do Douro, desde o Piar até à Barca d’Alva que eu não possa descrever com a mesma exactidão como se fosse seu próprio dono – porém se eu declarasse que uma grande parte do vinho oferecido à venda nas adegas mais bem situadas, indicando estas uma por uma, não é produzido dentro da demarcação da Feitoria, mas trazido de muitas léguas de distância em odres – se mencionasse os nomes daqueles que em outro tempo não se envergonhavam de declarar que não havia baga nem mixórdias no Douro, sendo eles os principais cultivadores de sabugueiros e praticantes de adulterações – se indicasse a extensão de outras propriedades mencionando o número de alqueires de centeio que levam de semeadura – se enfim eu marcasse os sítios dos mais finos vinhos brancos ou tintos, notando quem se mostra mais amigo das castas de bastardo e arvarilhão, e quem prefere as de Touriga e Souzão, dizendo só a verdade e desmascarando os maiores inimigos da prosperidade ao seu país, iria contudo ofender interesses particulares e embrulhar alguns inocentes com culpados, e por isso, por enquanto, limitar-me-ei a descrever o que como viajante vi e presenciei ou o que por muitas vezes tenho visto mas sem me ocupar com individualidades.

Ambas as margens do rio nesta extensão de 4 léguas são muito elevadas e estão cobertas de vinhas – havendo entre elas bastante azeite. Agora não se pode falar nesta propriedade, porque pertence ela a um dos actuais ministros, logo as más-línguas haviam de dizer que eu pretendia dele algum crachá.

Na Folgosa e no Pinhão costuma ás vezes haver bom carneiro, mas geralmente o carneiro deste país e muito magro e rijíssimo. O pão de lamego e Portelo é o que se gasta na Régue e Folgosa: - no Pinhão acha-se a vender pão de Provesende a Favaios. É digno de se notar que até aqui todo o pão é de trigo e milhão, e só daqui para cima é que principia a haver pão de centeio.

Numa estalagem do Pinhão onde mandei recolher três cavalos meus, por uma noute, em razão da escassez de palha e grão, custou-me a sua ração dous mil e trezentos reis.

Já tenho dito que, ainda que no Piar principiem os xistos, não há pedras no rio, (exceptuando algumas de pequena dimensão no sítio da Sermenha, Corvaceira e Salgueiral) até ao Corgo: porém há-de ser difícil acreditar que exista nos países menos civilizados rio algum que se ache em tal estado do maior abandono, com tantas pedras à vista e tão fáceis de tirar como as que actualmente existem entre o Corgo e o Pinhão.

Quantas leis e decretos se têm feito ordenando impostos para melhorar a navegação do rio e tratar das obras da barra! Desta mesma barra em que os cartagineses de Himilcão naufragaram no ano do mundo 3531. Tenho todos esses decretos na minha colecção de papéis curiosos, mas por mais diligências que tenha feito não vinte e tantos anos que conheço o rio Douro, ainda ninguém me tem podido informar do destino que se tem dado aos impostos do rio e aos da barra. É verdade que 200 reis em pipa "para as pedras" não havia de render mais do que uns vinte contos anuais; porém em 10 anos importaria em duzentos contos e com tal soma muitas e importantíssimas obras se poderiam ter feito; muito preciosas vidas se teriam salvado e grandes valores de fazendas se não haveriam perdido.

Sobre estradas achamos de bastante interesse o Alvará de 13 de Dezembro de 1788, em que a Soberana declara que "sendo plenamente informada de que havendo-se dificultado pelas ruinas em que se acham as estradas que decorrem por uma e outra parte do Alto Douro o beneficio de todos que comerceiam em vinhos daquele distrito e sendo deste inconveniente também uma das causas principais, a de não haver na longitude daquele distrito uma estrada que sirva de auxilio à navegação dos barcos que sobem e descem pelo Rio Douro, nos tempos em que a nímia abundância ou a grande falta de águas dele dificultam, a sua pronta navegação, sou servida ordenar que se construam as referidas estradas, na forma mais pronta e perfeita, de que os respectivos terrenos forem capazes etc, etc."

Tem decorrido 66 anos e as estradas ainda ficam em projecto!!!

Os arrais chamam pontos ou galeiras, aos obstáculos à navegação e em uma das minhas obras já publicadas menciono que existem tem todo o rio 210 destes pontos, todos os quais estão actualmente à vista. Os pontos do Corgo, Baguste, Outeiro de Covelinhas, S. Martinho, Moreirinha, Seco do Ferrão, ponto novo do Ferrão, Canal de Moura, Cachucha, Chanceleiros, Oliveirinha, e Sopas ou Buxeiro, são objectos que envergonham o actual governo de Portugal, por serem estes de fácil melhoramento. Quanto ao ponto do Canal das Marcas, o seu concerto seria mais custoso.

Julgo, Srs. Redactores, que os seus dignos compatriotas não levarão a mal as impressões de que me tenho servido, filhas do vivo interesse que tomo na prosperidade deste país, escrevendo na minha barquinha estas cartas e subindo estes mesmos pontos à força de trabalho dos infelizes marinheiros, trabalho que bem podia evitar-se.

Sou de VV.

J.J. Forrester

Domingo, 2 de Junho de 2013

Rede de Tracção Eléctrica na cidade do Porto 2

E eis a segunda imagem da rede de carros eléctricos e troleicarros da STCP nos anos 60 do século passado.

Esta será, digamos, a mais "sumarenta" em termos de saudades para quem me está a ler Trata-se do mapa da parte central da rede, no centro do Porto, quase na sua máxima extensão ainda com a maioria das linhas activas.

 
Este mapa mostra todas as linhas, bem como as remises de Massarelos e Boavista.
Nele surgem também os canais ferroviários com as estações: Boavista, Trindade, S. Bento e Alfândega.

Como curiosidade, permitam-me acrescentar que a linha 1 - no fundo a linha de maior "mística" da rede - foi durante bastante tempo feita em conjunto com a linha 9 para Ermesinde.
O Eléctrico vinha de Leça com o seu atrelado, no Infante deixava-o ficar bem travado e com um conductor (vulgo pica), a aguardar que ele fosse à Praça dar a volta... mas não seria o mesmo veiculo que o vinha buscar. Isto porque, chegando à Praça, o Guarda-Feio mudava a chapa de 1 para 9 e lá seguia ele até Ermesinde!!! Ou seja, o mesmo veiculo fazia duas carreiras completamente independentes.

Quarta-feira, 29 de Maio de 2013

Uma fotografia intrigante...

A fotografia abaixo deixava-me intrigado quando para ela olhava, pois nada conhecia do que surge em primeiro plano. Tirando a Sé e a igreja dos Grilos lá no fundo (sem dúvida os objectivos da fotografia), aqueles barracões e traseiras de casas pareciam nada ter a ver com o ângulo de onde a foto poderia ter sido tirada.

Contudo, vendo plantas antigas da cidade e tentando discortinar de onde a foto foi tirada e o que lá se encontra agora, não restam dúvidas que esta vista foi captada daquele que é agora o Palácio da Bolsa, talvez no primeiro ou segundo andar do seu ângulo Rua da Bolsa/Ferreira Borges.



Posto isto, aquilo que nos surge em primeiro plano, analisando a planta encontrado pelo Sr. Gabriel Silva no Arquivo distrital do Porto (http://www.portoantigo.org/search/label/Plantas), bem como uma outra foto onde surge o dormitório do convento dominicano visto de sul para norte (que apareceu numa passada crónica do Sr. Germano Silva), não restam dúvidas que se trata da parte mais a sul da antiga cerca dos dominicanos. Aqueles barracões estão, grosso modo, onde actualmente corre a Rua da Bolsa até ao ângulo onde está a Polícia, por baixo do Mercado Ferreira Borges.

As madeiras que se vêm depositadas no canto inferior direito da foto estão grosso modo no local onde temos actualmente o monumento ao Infante D. Henrique. Essas madeiras estarão provavelmente relacionadas com uma pequena notícia que encontrei n' O Comércio do Porto de 1860 que refere:

um particular ocupou indevidamente grande parte da cerca do extinto convento com carros e carros de madeira que todos os dias servem de latrina pública, indo completamente contra as posturas municipais.

De notar que o terreno foi posteriormente terraplanado e alinhado em altura com a Rua Ferreira Borges que já se encontrava toda contruida.

As traseiras das casas que vemos são as da Rua das Congostas (ou Cangostas), completamente arrasada para abertura da fase 2 da Rua Mouzinho da Silveira.
Em baixo coloco também uma foto que mostra com alguma aproximação o mesmo local no aspecto dos nossos dias.



Foto 1 > Arquivo histórico e municipal do Porto
Foto 2 > Sistema de informação para o património arquitectónico

Sábado, 25 de Maio de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (6)

SEXTA CARTA    

Na nossa última carta dissemos que no Piar não existia indício algum de ter havido princípio de estrada em comunicação com a ponte que neste sítio se tentou fazer. Este facto é mais notável quando se vê no Elucidário de Viterbo que:

“El-Rei D. Dinis no ano de 1301 fez romper novas estradas por cima da sua Ponte do Douro em direitura a Canaveses”

Naquela época podia-se servir da palavra estrada, falando de qualquer caminho insignificante; porém, pelo que vimos nas nossas digressões de Penafiel até Mesão Frio por Canaveses e Marco, em alguns sítios é mesmo dificultoso passar um homem a cavalo.

O Piar não é somente notável por ser um sítio de muita passagem no XIII século, mas por ser o sítio onde acabam os granitos e principiam os xistos, e o país vinhateiro do Aldo Douro.

O Douro faz bastantes voltas entre o Piar e a Régua – as suas margens são muito elevadas e cobertas de vinhas, entre as quais se notam alguns pomares e grande número de sabugueiros.

O rio leva mui pouca água – não se vêm pedras algumas, ainda que enormes bancos de areia estão depositados sobre grandes açudes de pedra de lousa.

Na margem direita notam-se os povos de Barqueiros, Mesão Frio, Cedadelhe, Oliveira, Fontelas, Caldas de Moledo, Salgueiral, Jugueiros, Régua e Peso.

Na margem esquerda temos Portagens, Vilar, Barô, Valonguinho, Moledo, Penajóia, Corvaceira, Samodães, Cambres e Portelo meia légua distante de Lamego.

Barqueiros é a primeira terra dos arrais e marinheiros – é abundante em vinhos e frutas mas a povoação é miserável e os habitantes pobríssimos.

Mesão Frio é uma vila bastante grande, situada no cume da montanha, tendo excelentes casas e a sua rua principal a mais bem calçada possível, formando parte da nova e excelente estrada real de Amarante à Régua. Sendo esta vila a principal entre Canaveses, Amarante e Lamego, já em 1097 o Conde D. Henrique e a piíssima rainha Dª. Teresa compraram nas suas vizinhanças umas casas para albergaria dos pobres, enfermos e peregrinos, e vê-se no citado Elucidário que a mesma rainha Dª. Teresa: “coutara a Gonçalo de Eriz a Quinta de Oseloa, e que de mão comum estabeleceram uma Albergaria em Meigomfrio, junto da mesma quinta, de cujos rendimentos se satisfariam os encarregados da dita albergaria,” – da mesma forma que “esta santa rainha estabeleceu a barca de Por Deus, a albergaria no lugar de Moledo, a de Amarante e Canaveses.”

A ideia vulgar por todos estes sítios, é que foi a rainha Santa Mafalda a fundadora destes pios estabelecimentos, porque lê-se nos documentos de Arouca, onde tanto a rainha D. Mafalda e a sua santa neta Mafalda ainda se veneram, que estas albergarias já eram velhas, quando a santa estava no princípio da vida.

O lugar das Caldas defronte de Moledo deriva o seu nome das águas sulfúricas que ai nascem perto do Douro e até no próprio leito do rio. Há mui poucos anos que apenas existiam aqui umas casinhas muito ordinárias e poucas ou nehumas comodidades para os enfermos que frequentavam as águas, porém agora há uma boa hospedaria, bons quarteis para famílias, lojas de peso bem sortidas, e como a posição é bela, o ar saudável, e a estrada magnifica, a afluência de gente irá cada vez em progresso aumento.

Cedadelhe, Oliveira e Fontelas, nada têm de extraordinário, sendo simplesmente povos pequenos cercados de vinhas, porém vale bem a pena que o viajante suba até aos cumes das serras de S. Silvestre e S. Gonçalo de Mourinho por ser da primeira onde ele poderá gozar belíssimas vistas das margens graníticas do rio, e da segunda de onde se pode descobrir todo o país vinhateiro de baixo Corgo.

De S. Silvestre vê-se toda a natureza em toda a sua majestade: em quanto que de S. Gonçalo de Mourinho, não há um palmo de terra que não fosse levantada três vezes por ano pela enxada do cultivador.

Salgueiral e Jugueiros estão situados num belíssimo vale onde em outro tempo não se cultivava senão trigo e frutas por ser a terra muito pesada demais para vinhas, mas depois da lei de 1843 cobriu-se de videiras.

Régua, como as Caldas, vai cada vez em aumento, especialmente na margem do rio onde se têm construído muitos e belos armazéns para o depósito de vinho. A principal casa é a da Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro – na qual se fazem as reuniões das provas. Antigamente era muito curioso estar no Peso ou na Régua na época da feira, quando os lavradores vinham vender e os negociantes comprar os vinhos novos. Então como sempre acontece debaixo de monopólios, a companhia tinha grandes privilégios e entre eles o de comprar todo o vinho que quisesse, pelo preço da taxa por ela mesmo imposta – enquanto que o comércio em competência uns com os outros, muitas vezes tinham de pagar o dobro destes preços sendo o excesso da referida taxa chamado, maioria, pagável em dinheiro de metal sonante (com exclusão de papel moeda) à factura do escrito.

Também as leis do marquês do Pombal estavam em pleno rigor – não podendo haver introdução de vinhos de fora da demarcação, nem tão pouco o sabugueiro podia existir no distrito nem o seu fruto ser usado, debaixo de grandes penas. Neste último ponto a companhia prestou muito serviço aos principais consumidores do vinho do Douro, e como tinha o poder de apartar arbitrariamente os vinhos que quisesse para embarque, limitava-se o comércio entre poucas mãos. Depois teve o subsidio dos 150 contos e a produção aumentou espantosamente para melhor poder suprir a compra das 20 mil pipas que ela era obrigada a fazer anualmente. Nestes últimos anos, ainda que a companhia não fosse abolida, a lei do subsidio forçosamente teria de o ser pela razão da escassez que ao principio resultou de estações desfavoráveis e agora ultimamente pelos efeitos da moléstia que tão terrivelmente flagela todos os países vinhateiros.

A companhia deixou pois de ter privilégios e autoridade, porém no seu lugar se estabeleceu uma comissão com quase idênticos poderes da extinta Companhia para regulamento das provas e separação dos vinhos, facilitando porém o uso da baga na sua composição, em razão da continuada exigência de imensa cor, dos vinhos intitulados de primeira qualidade para o embarque.

Como o meu fim, por ora, é só descrever as margens do Douro, reservar-me-ei para uma próxima ocasião para descrever o interessante país que se estende para o interior, e que é tão rico por natureza, mas cuja produção não é permitido desenvolver-se em razão das curtas e interessadas vistas das sucessivas administrações que Portugal tem tido e parece continuará a ter.

Há muito boas casas tanto na Régua como no Peso, e entre elas há fortunas colossais.

Todos os habitantes tem mais ou menos vinhas, e as pessoas principais são comissários de várias casas de comércio do Porto.

Graças ao digno administrador do correio central do Porto, e do seu delegado no Peso da Régua, há correio todos os dias entre o Porto, Vila Real, Lamego e Régua.

Na margem esquerda, desde Vilar até Cambres, apenas há o sítio de Barô digno de especial menção, em razão do seu antigo convento situado no alto da montanha de onde se descobrem vistas tão vastas como as de S. Silvestre e com a vantagem de ser num país cultivado e abundantíssimo em vinho e frutas.

Acima da Régua, o rio Corgo e defronte o rio Barosa, formam os limites do pais vinhateiro conhecido pelo distintivo de Baixo Corgo, cujos vinhos são mais palhetes que os do distrito contíguo.

As margens do Corgo não deixam de ser pitorescas, mas para vistas magnificas e sublimes, e que talvez seria difícil encontrar iguais em parte alguma do mundo, é forçoso que todo o viajante de bom gosto dê o seu passeio a cavalo pelos sítios da Valdigem, Sande e Serra de Balsemão até á antiga cidade de Lamego, voltando pela estrada real por Portelo, outra vez para o Douro.

Quanto ao estado das vinhas entre Mesão Frio e Régua pode dizer-se que a moléstia tem estragado as uvas todas, enquanto que apesar das asserções feitas por pessoas interessadas, a moléstia não fez grandes estragos na zona de Penaguião e se não fossem os grandes e continuados calores destes últimos dias que secaram muitas uvas a novidade de 1854, apesar de escassíssima em alguns sítios, noutros teria produzido dobrada quantidade do vinho da colheita do ano passado conforme escrevi neste jornal na minha carta de Pinhão.

Na estrada da foz do Barosa até à quinta de Val de Lage, propriedade do nobre visconde de Várzea, notei com muito interesse que em algumas vinhas deste fidalgo a moléstia tinha feito grandes estragos, porem que no meio delas havia uma única vinha em que as videiras não tinha sinal algum da moléstia, e as uvas eram abundantes, bem criadas e perfeitas.

Tão extraordinária era esta vista que por três vezes tentei copia-la fotograficamente, porém, em razão do sol ardentíssimo todas as minhas tentativas foram malogradas.

Na Régua ainda se registam todos os vinhos produzidos no distrito, concedendo guias para a sua condução para baixo – guias que têm de ser conferidas e rubricadas no cais do Bernardo, Perto do sítio do Piar.
Sou de VV.
J.J. Forrester

Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

Rede de Tracção Eléctrica na cidade do Porto 1

A imagem abaixo mostra uma visão da área "periférica" da rede de carros eléctricos (e troleicarros) da cidade em 1967. Nesta altura já parte da rede de tração eléctrica sobre carris tinha sido suprimida (começou em 1957 com as linhas que iam para Vila Nova de Gaia).
 
Este complexo e completo esquema, bem como um outro que publicarei mais tarde, surge no pequeno mas fundamental livro para perceber a tração eléctrica em Portugal intitulado The Tramways of Portugal (4ª edição, 1995).
 
O Porto inaugurou o transporte público por tração eléctrica em Portugal, em 1895, seguindo-se de Lisboa em 1901. Posteriormente também Coimbra e Braga chegaram a contar com este meio de transporte.
Uma outra rede que menciono à parte destas por se encontrar deslocada de um grande centro urbano é a de Sintra; que ainda hoje conta na sua frota com veículos activos e já centenários construidos na sua maioria na mesma fábrica dos eléctricos da Invicta, a J. G. Brill de Philadelphia.
 
Pese embora no Porto o eléctrico se encontre hoje meramente reduzido a uma atração turística, é sempre um prazer disfrutar de uma viagem nele - sobretudo nesta estação que agora nos encontramos - e apreciar a paisagem ao mesmo tempo que somos embalados pelos ruídos, cheiros e solavancos e nos deixamos deleitar com o passeio que máquina tão pachorrenta mas tão bela nos consegue produzir.
 
Saúdo os STCP pela recuperação da rede de eléctricos no que respeita ao material circulante: bom compromisso entre modernidade aliada à segurança e à genuinidade, pois que os veículos usam quase só tecnologia vintage e com restauro completo das diversas unidades em circulação. E saúdo também a rede de linhas existente, posto que pequena, passa por pontos chave da cidade e com a 22 devolveu o eléctrico verdadeiramente ao centro dela.
 
Nos meados dos anos noventa, quando quem geria a STCP só dava machadadas sepulcrais em Massarelos, ao ponto de a única sobrevivente 18 passar dos 7 carros diários na rua para apenas 3 a ficarem sempre retidos na Foz graças à estupidez automobilística, nunca imaginaria o renascimento que teve e que hoje ai está!
 
Já agora um apelo: Quando colocam o eléctrico novamente a ir dar a volta ao Castelo da Foz? É mais do que justo que isso aconteça agora que as corridas de carros estragaram o projecto de o levar de novo ao Castelo do Queijo. Só faltam uns poucos centos de metros...